sexta-feira, 24 de julho de 2015

ANSIEDADE SEM APLICATIVO - PROFESSOR OSWALDO GIACOIA JUNIOR

Para filósofo, pseudo urgência das coisas suprimiu o tempo do pensar. "A civilização barbarizou-se, por falta de tranquilidade"


O ritmo da modernidade é marcado pela intensificação da agitação em escala global, do ativismo e do falatório, característicos do estilo de vida em sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Nossa cadência é determinada pela velocidade operante nos circuitos informativos e comunicacionais nos quais estamos enredados. Como disse o filósofo Adauto Novaes, somos uma civilização de falastrões, que se obstina em Facebooks, celulares, conversas virtuais, tuítes (escritos na cadência da fala; ao contrário de Macunaíma, já não temos mais que aprender o português escrito e o português falado). Nunca se falou e escreveu tanto, multiplicando-se a injunção à bavardage pelos meios e canais mais diversos, acelerando vertiginosamente a temporalidade e proliferando espaços imateriais de fala e escrita conectados em redes sociais de amplíssimo alcance. O WhatsApp, em especial, tornou-se mania, uma irresistível solicitação que nos mantém permanentemente online, fazendo desaparecer nossas horas de estudo e contemplação, alterando nossas noções de urgência e emergência.

A mil: ‘Rapidez das operações virou imperativo, a loquacidade é signo de indulgência mental’

(Foto Aloísio Maurício) 

O filósofo Friedrich Nietzsche ajuda-nos a refletir sobre essa compulsão à velocidade comunicacional e ao formigamento dos discursos vazios em dimensão planetária. Para uma percepção refinada e extemporânea como a de Nietzsche, essa curiosidade generalizada, esse anseio pela novidade, que torna tudo imperiosamente urgente, é um sintoma de corrupção do gosto e embotamento de corações e mentes, indício de uma ausência de pensamento, em que só há percepção para o elemento quantitativo, para a maximização de performances, numa alucinada e constante busca de satisfações imediatas. Em seu tempo, Nietzsche já discernira esse traço como um ingrediente do american way of life: “Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o outro. E a asfixiante pressa com que trabalham - o vício peculiar ao Novo Mundo - já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo'. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.
Parar para pensar sobre isso é, paradoxalmente, uma tarefa urgente, na medida em que a palavra urgência nos convoca para uma retomada do sentido autêntico de necessidade. A racionalidade instrumental embutida nessas formas de comunicação e vida equaciona, em sua lógica estreitamente binária, urgência e pressa, açodamento e procura reiterativa por opções de consumo e prazer. É necessário resgatar a memória daquilo que a nossa linguagem pensa com a palavra urgentia. Seu etmo em urgeo/urgere significa originariamente operar, trabalhar. Trata-se, pois, de um encargo, não de um conforto. É uma tarefa do pensamento que, fiel à sua origem, não se distingue da ação. Nada parecido com o ativismo frenético e o falatório vão. Fazer a experiência da urgência significa entrar em correspondência com aquilo que urge, com a necessidade constringente, que pressiona, comprime, faz um cerco, onera, sobrecarrega, mas também impele, impulsiona, convoca. Essa força é também o compromisso com o dar-se tempo para pensar a respeito da condição do homem no mundo, portanto, do compromisso com sua liberdade e sua dignidade ensombrecidas.
Como, porém, recuperar essa concepção de necessidade quando somos concitados a modificar tecnologicamente até mesmo aquilo que outrora reconhecíamos como elementarmente necessário, como o sono? Experimentos avançados são feitos no sentido de diminuir drasticamente sua necessidade, com o propósito de manter ativos, ocupados e rentáveis, na maior parte do tempo possível, indivíduos e grupos que podem desempenhar funções socialmente valorizadas. O exemplo mais eloquente são tentativas de limitar a necessidade de sono para adestrar soldados capazes de permanecer em vigília por dias seguidos, sem necessidade do repouso do sono. Eles seriam aptos a combater durante a noite. Assim se extrairia o máximo rendimento e utilidade de sua atuação. Nessa linha, nada impede que, além de soldados programados para guerrear como máquinas, venhamos a produzir também consumidores capazes de manter-se em ação 24 horas por dia, durante a maior parte dos 365 dias do ano.
Na persecução desse objetivo aliam-se as engenharias de ponta - nos domínios da informática - com pesquisas sobre inteligência artificial, neurofisiologia e psicologia experimental, genética, ciências do comportamento e cognição, nanotecnologia. Busca-se reconfigurar a consciência para que ela ultrapasse seu natural atrelamento aos cinco sentidos e se conecte a redes neurais, ligando o sistema neurológico a redes computacionais, a bancos de registro e processamento de informações. Não tem sentido demonizar essas mudanças e as conquistas da racionalidade tecnocientífica, como se fossem portadoras do infortúnio. O problema reside em nossa atitude face a elas. 
Hoje a regra é dada pela ansiedade, que assume proporções exponenciais, a ponto de uma cultura não poder mais amadurecer seus frutos por excesso de rapidez no fluxo do tempo. A civilização barbarizou-se, por falta de tranquilidade. Nunca homens e mulheres ativos, isto é, intranquilos e permanentemente excitados, valeram tanto. Entretanto, no fundo da alma do homem hiperativo disfarça-se a indolência, sempre à cata de novas distrações, uma resignação que o impede de entrar em contato consigo mesmo e com os outros. O primado do rentável e do útil, imposto a qualquer custo, exige uma equação cerrada entre operação e utilização integral do tempo. A rapidez das operações foi transformada em imperativo categórico, que suprime o “tempo de pensar”. Nossa loquacidade é signo de indigência mental. 
Essa barbárie civilizada denuncia-se na relação da arte com a vida moderna. A esterilidade que nos assola manifesta-se na relação inautêntica, consumista com as obras de arte, cuja fruição exige, antes de tudo, repouso, sossego e paz no corpo e na alma. “Nós temos a consciência de uma época laboriosa. Isso não nos permite dedicar à arte as melhores horas e manhãs, ainda que essa arte seja a maior e mais digna”, afirma Nietzche. “Para nós ela faz parte do ócio, da recreação. Damos-lhe o resto de nosso tempo, de nossas forças. Esse é o fato mais geral que alterou a posição da arte diante da vida: ao fazer grandes exigências de tempo e energia aos seus receptores, ela tem contra si a consciência dos laboriosos e capazes.” A agitação verborrágica, no entanto, não é sequer ocupação. Considerada em sua verdade, é apenas dissipação denegada, um fazer de conta.
Esse diagnóstico cultural inclui também uma apreciação afirmativa do ócio criativo, uma chamada de atenção para a necessidade do inútil em estrita oposição à incontinência do entretenimento verborrágico, sempre ocupada e curiosa. “Há algo de nobre no ócio e no lazer. Se o ócio é realmente o começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo. Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos”, continua Nietzsche. 
O filósofo não se dirige aos apressados, mas aos que sabem e podem calar sem ser assolados pelo tédio. Só é capaz de silêncio quem pode falar, quem tem linguagem. Quem nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, também não pode guardar silêncio. Ao silenciar, permanecemos reticentes, porque nos guardamos para dizer algo, algo que temos a dizer, e que consideramos ter significação e importância. Essa é a lição que colhemos em João Guimarães Rosa, que sabia de si. “Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem -, mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais..” 

 OSWALDO GIACOIA JUNIOR É FILÓSOFO, PROFESSOR TITULAR DA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE NIETZSCHE: O HUMANO ENTRE A MEMÓRIA E A PROMESSA (VOZES)


Oswaldo Giacoia Junior - O Estado de São Paulo. Disponível em Acesso 27 de Junho de 2015.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ENTREVISTA COM O PROFESSOR CLÓVIS DE BARROS FILHO - PROGRAMA PALAVRA CRUZADA - REDE MINAS




"Canalha não é um atributo de uma pessoa, mas de uma conduta" de acordo com o Professor Clóvis, "SOMOS TODOS CANALHAS - Filosofia para uma sociedade em busca de valores" é o título do novo livro do professor Dr. Clóvis de Barros Filho (USP) em parceria com o professor Dr. Júlio Pompeu (UFES) distribuído pela Editora Leya Brasil - Casa da Palavra. O livro é uma reflexão acerca da capacidade do homem de atribuir valor, ou seja, uma reflexão sobre o juízo de valor, a constituição dos valores humanos (o metron humano), da Ética, Estética, Política, isto é, "um diálogo apaixonado sobre o valor e seus muitos significados".

O lançamento do livro em Belo Horizonte foi através do Programa Palavra Cruzada (Rede Minas), em Belo Horizonte - MG, no dia 23 de Junho de 2015, na qual tive o privilégio de ser convidado , conhecer e entrevistar o grande Professor Clóvis juntamente com jornalista Luciano Correia, o escritor mineiro Luís Giffoni e o teólogo Haroldo Mendes. Ética, Política, Educação, Antropologia são os temas discutidos com, como é de praxe o professor Clóvis utilizar exemplos pessoais e com uma linguagem assertiva, faz dele um grande pensador e comunicador brasileiro, que dispensa comentários. Confira a entrevista na íntegra abaixo:


Pensamentos

"Conhece a ti mesmo." Sócrates --"A linguagem é a morada do Ser." Heráclito -- "O homem é a medida de todas as coisas." Protágoras -- " Penso, logo existo. " René Descartes -- " O Mundo é minha representação sobre ele. " Artur Schopenhauer -- " Ai ai, o tempo dos pensadores parece ter passado! " Soren Kierkaard -- "Sobre aquilo que não pode ser dito deve se calar.” Ludwig Wittgenstein -- "O Ser é um horizonte de possibilidades." Martin Heidegger -- "A essência precede a existência." Jean Paul Sartre -- " A esperança floresce senão sobre o solo do desespero. " Gabriel Marcel "A razão e a sabedori falam. O Erro e a ignorância gritam." Sto. Agostinho "A melhor lição é o exemplo." Sto. Agostinho