sábado, 24 de outubro de 2015

QUESTÕES DE FILOSOFIA ENEM 2015 E GABARITO ENEM 2015 - PROVA DE CIÊNCIAS HUMANAS E CIÊNCIAS DA NATUREZA 1° DIA - CADERNOS BRANCO, AZUL, AMARELO E ROSA

A prova do Enem 2015 surpreendeu pela quantidade de questões marcadamente filosóficas. São oito, que abaixo estão relacionadas de acordo com a prova amarela.
1- Questão 05
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.
Beaouvoir, S. O segundo sexo. Riode Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
Na década de 1960, a proposição de Simone de Beaouvoir contribuiu para estruturar um movimento social que teve como marca o(a):
a) ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual.
b) pressão do Pode Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho.
c) organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero.
d) oposição de grupos religiosos para impedir os casamentos homoafetivos.
e) estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas.
Na área da disciplina filosofia, esta questão envolve os seguintes eixos temáticos, dentre outros:
Existencialismo;
Filosofia política;
Ética e moral;
Natureza e cultura;
Relações de gênero.
A resposta correta é a letra C. Simone de Beouvoir foi ativista feminina e escritora. Preocupou-se sobretudo em desnaturalizar o conceito de "feminino", mostrando tratar-se de uma construção social num contexto de dominação do gênero masculino. E por isso, suas ideias influenciaram as lutas feministas que exigia e exige direitos iguais entre homens e mulheres.
2- Questão 11
A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição anuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.
 NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?
a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.
A questão trabalho os seguintes temas relacionados à filosfia, dentre outros:
História da filosofia pré-socrática;
Origem da filosofia;
Filosofia X mito.
A alternativa correta é a letra C. Nietzsche refere-se a um grupo de filósofos pré-socráticos chamados de filósofos da natureza, naturalistas, ou filósofos da phýsis. Esses buscavam a realidade primeira fundamental numa perspectiva cosmológica. Nietzsche valoriza os pré-socráticos por investigarem o real de forma racional, sem "imagem e fabulação" próprias da mitologia.
3- Questão 20
A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestadamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que um deles possa com base nela reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar.
HOBBES. T. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Para Hobbes, antes da constituição da sociedade civil, quando dois homens desejavam o mesmo objeto, eles
a) entravam em conflito.
b) recorriam aos clérigos.
c) consultavam os anciãos.
d) apelavam aos governantes.
e) exerciam a solidariedade.
Esta questão trabalha o tema Filsofia política.
A alternativa correta é a letra A. Em sua filosofia, Thomas Hobbes sustentou uma concepção pessimista de ser humano. Em estado de natureza, o homem se revela uma índole egoista, inclinado ao conflito. O filósofo afirma que antes da constituição da sociedade civil dominava o estado de guerra de todos contra todos.
4- Questão 23
O que implica o sistema da pólis é uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. A palavra constitui o debate contraditório, a discussão, a argumentação e a polêmica. Torna-se a regra do jogo intelectual, assim como do jogo político.
VERNANT, J.P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992 (adaptado).
Na configuração política da democracia grega, em especial a ateniense, a ágora tinha por função
a) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam em prol da cidade.
b) permitir aos homens livres o acesso às decisões do Estado expostas por seus magistrados.
c) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia para deliberar sobre as questões da comunidade.
d) reunir os exércitos para decidir em assembleias fechadas os rumos a serem tomados em caso de guerra.
e) congregar a comunidade para eleger representantes com direito a pronunciar-se em assembleias.
Esta questão envolve conhecimentos de filosofia grega, política, democracia ateniense, constituição da pólis, etc.
A resposta correta é a altenativa C. Para os gregos, a ágora era a praça central dapólis, na qual se reuniam os cidadãos. Atenas passava por um período democrático e naEclésia (assembleia dos cidadãos) os cidadãos se reuniam para decidir sobre os assuntos de interesse público, que configurava a prática de uma democracia direta.
5- Questão 29
Ora, em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o devido fim. Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao fim do destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto; ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas comprova. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim.
AQUINO. T. Do reino ou do governo dos homens: ao rei do Chipre. Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino. Petrópolis: Vozes, 1995 (adaptado).
No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia como o regime de governo capaz de
a) refrear os movimentos religiosos contestatórios.
b) promover a atuação da sociedade civil na vida política.
c) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem comum.
d) reformar a religião por meio do retorno à tradição helenística.
e) dissociar a relação política entre os poderes temporal e espiritual.
Esta questão aborda a filosofia medieval, especialmente das ideias da escolástica.
A alternativa correta é a letra C. Tomás de Aquino é um teólogo-filósofo da Idade Média. Seu objetivo é justificar a autoridade dos reis, pois esta era a forma de governo predominante na Europa medieval, sendo - ao menos em tese -, direcionada a realização do bem comum.
6- Questão 34
Trasímaco estava impaciente porque Sócrates e os seus amigos presumiam que a justiça era algo real e importante. Trasímaco negava isso. Em seu entender, as pessoas acreditavam no certo e no errado apenas por terem sido ensinadas a obedecer às regras da sua sociedade. No entanto, essas regras não passavam de invenções humanas.
RACHELS, J. Problemas da filosofia. Lisboa: Gradva, 2009.
O sofista Trasímaco, personagem imortalizado no diálogo A República, de Platão, sustentava que a correlação entre justiça e ética é resultado de
a) determinações biológicas impregnadas na natureza humana.
b) verdades objetivas com fundamento anterior aos interesses sociais.
c) mandamentos divinos inquestionáveis legados das tradições antigas.
d) convenções sociais resultantes de interesses humanos contingentes.
e) sentimentos experimentados diante de determinadas atitudes humanas.
A questão trabalha assuntos relacionados à política grega, às ideias dos sofistas, à ética, etc.
A alternativa correta é a letra D. O sofista Trasímaco entendia que a justiça não era mais do que a conveniência do mais forte, ou seja, de acordo com os seus interesses. De fato, Sócrates fazia oposição aos sofistas justamente por causa desse relativismo.
7- Questão 37
Todo o poder criativo da mente se reduz a nada mais do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos fornecem os sentidos e a experiência. Quando pensamos em uma montanha de ouro, não fazemos mais do que juntar duas ideias consistentes, ouro e a montanha, que já conhecíamos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, porque somos capazes de conceber a virtude a partir de nossos próprios sentimentos, e podemos unir a isso a figura e a forma de um cavalo, animal que nos é familiar.
HUME. D. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1995.
Hume estabelece um vínculo entre pensamento e impressão ao considerar que
a) os conteúdos das ideias no intelecto tem origem na sensação.
b) o espírito é capaz de classificar os dados da percepção sensível.
c) as ideias fracas resultam de experiências sensoriais determinadas pelo acaso.
d) os sentimentos ordenam como os pensamentos devem ser processados na memória.
e) as ideias têm como fonte específica o sentimento cujos dados são colhidos na empíria.
A questão envolve filosofia moderna, o Empirismo, teoria do conhecimento, etc.
A resposta correta é a alternativa E. Para Hume, as ideias e impressões são nossos conteúdos mentais. As impressões resultam diretamente da experiência imediata; e as ideias são as cópias fracas e desbotadas das impressões. Para o filósofo o acaso, não passando de um efeito aparente de uma causa desconhecida e oculta.
8- Questão 40
Apesar de seu disfarce de iniciativa e otimismo, o homem moderno está esmagado por um profundo sentimento de impotência que o faz olhar fixamente e, como que paralisado, para as catástrofes que se avizinham. Por isso, desde já, salienta-se a necessidade de uma permanente atitude crítica, o único modo pelo qual o homem realizará sua vocação natural de integrar-se, superando a atitude do simples ajustamento ou acomodação, aprendendo temas e tarefas de sua época.
FREIRE. P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
Paulo Freire defende que a superação das dificuldades e a apreensão da realidade atual será obtida pelo(a)
a) desenvolvimento do pensamento autônomo.
b) obtenção de qualificação profissional.
c) resgate de valores tradicionais.
d) realização de desejos pessoais.
e) aumento da renda familiar.
Temas relacionados à filosofia contemporânea são trabalhados nesta questão. Dentre eles, a crise da razão, a subjetividade e os desafios da atualidade.
A alternativa correta é a letra A. O enunciado da questão nos remete à necessidade de um pensamento autônomo capaz de permitir que o ser humano possa, por autocrítica, superar os problemas existentes em sua época e alcançar de fato a liberdade.       

Fonte: http://professorpina.com/questoes-filosofia-enem-2015.asp


O Curso Descomplica publicou neste sábado, 24 de Outubro, uma prévia do Gabarito do ENEM 2015 das Provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, do primeiro dia, cadernos branco, azul, amarelo e rosa, lembrando que os gabaritos não são os oficiais, portanto, podem ocorrer erros, confira abaixo:







FONTE: http://www.descomplica.com.br

ENEM 2015 - PROVA DE CIÊNCIAS HUMANAS - CADERNO ROSA

ENEM 2015 - PROVA DE CIÊNCIAS HUMANAS - CADERNO ROSA
         
        Sábado dia 24 de Outubro, ocorreu em todos os Estados do Brasil o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em sua versão ENEM 2015, que contou com 7.746.057 candidatos inscritos de acordo com o site do INEP, o primeiro dia do exame foram as provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza e Suas Tecnologias, total de 90 questões, ou seja, 45 questões cada prova. O portal G1 publicou nesta noite imagens da Prova de Ciências Humanas, do caderno rosa, confira abaixo:






Fonte: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/10/enem-2015-prova-rosa-sabado.html

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O artigo 5º é meu e seu

De acordo com Immanuel Kant, grande filósofo prussiano, “(...) o homem é um animal que, quando vive entre outros de sua espécie, tem necessidade de um senhor. Pois ele certamente abusa de sua liberdade relativamente a seus semelhantes; e, se ele, como criatura racional, deseja uma lei que limite a liberdade de todos, sua inclinação animal egoísta o conduz a excetuar-se onde possa. Ele tem necessidade de um senhor que quebre sua vontade particular e o obrigue a obedecer à vontade universalmente válida, de modo que todos possam ser livres. Mas de onde tirar esse senhor? De nenhum outro lugar senão da espécie humana. Mas este é também um animal que tem necessidade de um senhor. Seja qual for o começo, não se vê como o homem pode se dar, para estabelecer a justiça pública, um chefe que também seja justo – ele pode procura-lo numa única pessoa ou num grupo de pessoas escolhidas para isso. Pois todos eles abusarão sempre de sua liberdade, se não tiverem acima de si alguém que exerça o poder segundo as leis. O supremo chefe deve ser justo por si mesmo e, todavia ser um homem. Esta tarefa é, por isso, a mais difícil de todas; sua solução perfeita é impossível: de uma madeira tão retorcida, da qual o homem é feito, não se pode fazer nada reto. Apenas a aproximação a esta ideia nos é ordenada pela natureza.”

Bastante pertinente o que diz Kant em relação ao assunto que pretendo tratar hoje neste artigo. Ele, o filósofo, fala da necessidade de um “senhor” para exercer o poder sobre a espécie humana e mais do que isso, que ele exerça o poder segundo as leis. E a minha intenção é justamente esta, despertar nos meus leitores o interesse pelas nossas leis, em especial pela Lei Maior. Sim, porque nós a temos e ela está aí para ser apreendida e cumprida.

Achei bastante oportuno tratar de um artigo de significado essencial nas nossas vidas enquanto brasileiros ou residentes no Brasil: o artigo 5º da nossa Constituição Federal. Para os especialistas, mestres e doutores no assunto, deixo claro que sou uma humilde aprendiza e amante das leis. Não tenho a mínima pretensão de ensinar Direito Constitucional aqui, mas sim de instigar a vontade de se procurar saber dos nossos direitos e deveres expressos na Constituição da República Federativa do Brasil.

O art. 5º trata dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. Diz em suas linhas que todos nós somos iguais perante a lei, e que garantirá aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Brasil a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade; que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei; que ninguém será submetido a tortura; que é assegurado o livre exercício dos cultos religiosos; que é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação; que a casa é asilo inviolável do indivíduo; que é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz; que é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; e ainda, que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público.

E mais, no inciso XLII é dito que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”; já no inciso LXV, “a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária”; e olhe só, “são gratuitos para os reconhecidamente pobres, na forma da lei: o registro civil de nascimento e a certidão de óbito”, conforme o inciso LXXVI.

Mas, isso que escrevi foi só uma pequena amostra dos mais de 70 incisos que a Constituição Federal traz em seu artigo 5º. O meu intuito foi mostrar o quão importante é sabermos dos nossos limites, para que, aí sim, possamos exigir o que nos é de direito amparados pelo conhecimento da Lei. Porque sem argumento e opinião fundamentados, o discurso fica vazio e sem credibilidade, e as discussões não chegam a lugar nenhum porque não se tem conhecimento sólido, é tudo na base do “eu acho”. Por exemplo, veja se você acha ou tem certeza da resposta as seguintes perguntas: “é possível a pena de morte no Brasil?”, “o Brasil tem uma religião oficial?”, “quais são os crimes inafiançáveis”?, “o que é um habeas corpus?”, “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações de acordo com a Constituição Federal?”. Recorrendo ao artigo em questão, você obterá a resposta a essas perguntas e a outras mais que devam estar ocorrendo a você agora. Portanto, não perca a oportunidade de ser um cidadão informado e peça-chave de transformação na sociedade em que vive.

A base da cidadania é constituída exatamente dos nossos direitos e deveres. Portanto, conheça os seus deveres para que possa exigir os seus direitos do “senhor” escolhido nas urnas!

A Constituição Federal, assim como as Constituições dos Estados Brasileiros e Estrangeiros, pode ser acessada pelo site https://www.presidencia.gov.br. Acesse já e bom exercício de cidadania!

Fonte: Blog Sabor de Informação - Disponível em Acesso 25/Set. 2015

sexta-feira, 24 de julho de 2015

ANSIEDADE SEM APLICATIVO - PROFESSOR OSWALDO GIACOIA JUNIOR

Para filósofo, pseudo urgência das coisas suprimiu o tempo do pensar. "A civilização barbarizou-se, por falta de tranquilidade"


O ritmo da modernidade é marcado pela intensificação da agitação em escala global, do ativismo e do falatório, característicos do estilo de vida em sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Nossa cadência é determinada pela velocidade operante nos circuitos informativos e comunicacionais nos quais estamos enredados. Como disse o filósofo Adauto Novaes, somos uma civilização de falastrões, que se obstina em Facebooks, celulares, conversas virtuais, tuítes (escritos na cadência da fala; ao contrário de Macunaíma, já não temos mais que aprender o português escrito e o português falado). Nunca se falou e escreveu tanto, multiplicando-se a injunção à bavardage pelos meios e canais mais diversos, acelerando vertiginosamente a temporalidade e proliferando espaços imateriais de fala e escrita conectados em redes sociais de amplíssimo alcance. O WhatsApp, em especial, tornou-se mania, uma irresistível solicitação que nos mantém permanentemente online, fazendo desaparecer nossas horas de estudo e contemplação, alterando nossas noções de urgência e emergência.

A mil: ‘Rapidez das operações virou imperativo, a loquacidade é signo de indulgência mental’

(Foto Aloísio Maurício) 

O filósofo Friedrich Nietzsche ajuda-nos a refletir sobre essa compulsão à velocidade comunicacional e ao formigamento dos discursos vazios em dimensão planetária. Para uma percepção refinada e extemporânea como a de Nietzsche, essa curiosidade generalizada, esse anseio pela novidade, que torna tudo imperiosamente urgente, é um sintoma de corrupção do gosto e embotamento de corações e mentes, indício de uma ausência de pensamento, em que só há percepção para o elemento quantitativo, para a maximização de performances, numa alucinada e constante busca de satisfações imediatas. Em seu tempo, Nietzsche já discernira esse traço como um ingrediente do american way of life: “Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o outro. E a asfixiante pressa com que trabalham - o vício peculiar ao Novo Mundo - já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo'. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.
Parar para pensar sobre isso é, paradoxalmente, uma tarefa urgente, na medida em que a palavra urgência nos convoca para uma retomada do sentido autêntico de necessidade. A racionalidade instrumental embutida nessas formas de comunicação e vida equaciona, em sua lógica estreitamente binária, urgência e pressa, açodamento e procura reiterativa por opções de consumo e prazer. É necessário resgatar a memória daquilo que a nossa linguagem pensa com a palavra urgentia. Seu etmo em urgeo/urgere significa originariamente operar, trabalhar. Trata-se, pois, de um encargo, não de um conforto. É uma tarefa do pensamento que, fiel à sua origem, não se distingue da ação. Nada parecido com o ativismo frenético e o falatório vão. Fazer a experiência da urgência significa entrar em correspondência com aquilo que urge, com a necessidade constringente, que pressiona, comprime, faz um cerco, onera, sobrecarrega, mas também impele, impulsiona, convoca. Essa força é também o compromisso com o dar-se tempo para pensar a respeito da condição do homem no mundo, portanto, do compromisso com sua liberdade e sua dignidade ensombrecidas.
Como, porém, recuperar essa concepção de necessidade quando somos concitados a modificar tecnologicamente até mesmo aquilo que outrora reconhecíamos como elementarmente necessário, como o sono? Experimentos avançados são feitos no sentido de diminuir drasticamente sua necessidade, com o propósito de manter ativos, ocupados e rentáveis, na maior parte do tempo possível, indivíduos e grupos que podem desempenhar funções socialmente valorizadas. O exemplo mais eloquente são tentativas de limitar a necessidade de sono para adestrar soldados capazes de permanecer em vigília por dias seguidos, sem necessidade do repouso do sono. Eles seriam aptos a combater durante a noite. Assim se extrairia o máximo rendimento e utilidade de sua atuação. Nessa linha, nada impede que, além de soldados programados para guerrear como máquinas, venhamos a produzir também consumidores capazes de manter-se em ação 24 horas por dia, durante a maior parte dos 365 dias do ano.
Na persecução desse objetivo aliam-se as engenharias de ponta - nos domínios da informática - com pesquisas sobre inteligência artificial, neurofisiologia e psicologia experimental, genética, ciências do comportamento e cognição, nanotecnologia. Busca-se reconfigurar a consciência para que ela ultrapasse seu natural atrelamento aos cinco sentidos e se conecte a redes neurais, ligando o sistema neurológico a redes computacionais, a bancos de registro e processamento de informações. Não tem sentido demonizar essas mudanças e as conquistas da racionalidade tecnocientífica, como se fossem portadoras do infortúnio. O problema reside em nossa atitude face a elas. 
Hoje a regra é dada pela ansiedade, que assume proporções exponenciais, a ponto de uma cultura não poder mais amadurecer seus frutos por excesso de rapidez no fluxo do tempo. A civilização barbarizou-se, por falta de tranquilidade. Nunca homens e mulheres ativos, isto é, intranquilos e permanentemente excitados, valeram tanto. Entretanto, no fundo da alma do homem hiperativo disfarça-se a indolência, sempre à cata de novas distrações, uma resignação que o impede de entrar em contato consigo mesmo e com os outros. O primado do rentável e do útil, imposto a qualquer custo, exige uma equação cerrada entre operação e utilização integral do tempo. A rapidez das operações foi transformada em imperativo categórico, que suprime o “tempo de pensar”. Nossa loquacidade é signo de indigência mental. 
Essa barbárie civilizada denuncia-se na relação da arte com a vida moderna. A esterilidade que nos assola manifesta-se na relação inautêntica, consumista com as obras de arte, cuja fruição exige, antes de tudo, repouso, sossego e paz no corpo e na alma. “Nós temos a consciência de uma época laboriosa. Isso não nos permite dedicar à arte as melhores horas e manhãs, ainda que essa arte seja a maior e mais digna”, afirma Nietzche. “Para nós ela faz parte do ócio, da recreação. Damos-lhe o resto de nosso tempo, de nossas forças. Esse é o fato mais geral que alterou a posição da arte diante da vida: ao fazer grandes exigências de tempo e energia aos seus receptores, ela tem contra si a consciência dos laboriosos e capazes.” A agitação verborrágica, no entanto, não é sequer ocupação. Considerada em sua verdade, é apenas dissipação denegada, um fazer de conta.
Esse diagnóstico cultural inclui também uma apreciação afirmativa do ócio criativo, uma chamada de atenção para a necessidade do inútil em estrita oposição à incontinência do entretenimento verborrágico, sempre ocupada e curiosa. “Há algo de nobre no ócio e no lazer. Se o ócio é realmente o começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo. Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos”, continua Nietzsche. 
O filósofo não se dirige aos apressados, mas aos que sabem e podem calar sem ser assolados pelo tédio. Só é capaz de silêncio quem pode falar, quem tem linguagem. Quem nunca diz nada, assim como quem nada tem a dizer, também não pode guardar silêncio. Ao silenciar, permanecemos reticentes, porque nos guardamos para dizer algo, algo que temos a dizer, e que consideramos ter significação e importância. Essa é a lição que colhemos em João Guimarães Rosa, que sabia de si. “Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem -, mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais..” 

 OSWALDO GIACOIA JUNIOR É FILÓSOFO, PROFESSOR TITULAR DA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE NIETZSCHE: O HUMANO ENTRE A MEMÓRIA E A PROMESSA (VOZES)


Oswaldo Giacoia Junior - O Estado de São Paulo. Disponível em Acesso 27 de Junho de 2015.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ENTREVISTA COM O PROFESSOR CLÓVIS DE BARROS FILHO - PROGRAMA PALAVRA CRUZADA - REDE MINAS




"Canalha não é um atributo de uma pessoa, mas de uma conduta" de acordo com o Professor Clóvis, "SOMOS TODOS CANALHAS - Filosofia para uma sociedade em busca de valores" é o título do novo livro do professor Dr. Clóvis de Barros Filho (USP) em parceria com o professor Dr. Júlio Pompeu (UFES) distribuído pela Editora Leya Brasil - Casa da Palavra. O livro é uma reflexão acerca da capacidade do homem de atribuir valor, ou seja, uma reflexão sobre o juízo de valor, a constituição dos valores humanos (o metron humano), da Ética, Estética, Política, isto é, "um diálogo apaixonado sobre o valor e seus muitos significados".

O lançamento do livro em Belo Horizonte foi através do Programa Palavra Cruzada (Rede Minas), em Belo Horizonte - MG, no dia 23 de Junho de 2015, na qual tive o privilégio de ser convidado , conhecer e entrevistar o grande Professor Clóvis juntamente com jornalista Luciano Correia, o escritor mineiro Luís Giffoni e o teólogo Haroldo Mendes. Ética, Política, Educação, Antropologia são os temas discutidos com, como é de praxe o professor Clóvis utilizar exemplos pessoais e com uma linguagem assertiva, faz dele um grande pensador e comunicador brasileiro, que dispensa comentários. Confira a entrevista na íntegra abaixo:


quinta-feira, 21 de maio de 2015

As diferenças entre um sábio e um cientista - Rubem Alves

As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas.
O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é
comida, conhecimento corporal.
O corpo gosta. A palavra “sapio”, em latim, quer dizer “eu degusto”...
O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões para viver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, não mexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: “Não tem gosto, mas tem poder”... É verdade. O sábio ensina coisas do amor.O cientista, do poder.
Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância. Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho, confessou que abandonara
os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis.
Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: “Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada”. O cientista
soma. O sábio subtrai. Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: “O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as
pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando...”
É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo. (...)
Parece que, ao nos criar, o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura.
Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo... Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para “desigualizar” as pessoas e fazer outros mundos nascerem...
Revista Educação, edição 125

Pensamentos

"Conhece a ti mesmo." Sócrates --"A linguagem é a morada do Ser." Heráclito -- "O homem é a medida de todas as coisas." Protágoras -- " Penso, logo existo. " René Descartes -- " O Mundo é minha representação sobre ele. " Artur Schopenhauer -- " Ai ai, o tempo dos pensadores parece ter passado! " Soren Kierkaard -- "Sobre aquilo que não pode ser dito deve se calar.” Ludwig Wittgenstein -- "O Ser é um horizonte de possibilidades." Martin Heidegger -- "A essência precede a existência." Jean Paul Sartre -- " A esperança floresce senão sobre o solo do desespero. " Gabriel Marcel "A razão e a sabedori falam. O Erro e a ignorância gritam." Sto. Agostinho "A melhor lição é o exemplo." Sto. Agostinho