segunda-feira, 15 de abril de 2019

Inteligência Emocional: Como Equilibrar Razão e Emoção?

Por Natália Ceará*

Nosso cérebro é dividido em hemisfério esquerdo e direito. Para entender melhor o que você lerá nesse artigo, é interessante saber primeiramente,  que o hemisfério esquerdo é, predominantemente, focado em nossas habilidades de cálculo, raciocínio lógico e matemático, entre outras funções (mais ligadas ao intelecto e lado racional das tomadas de decisão e pensamentos). Já o lado direito é, também de maneira predominante, focado em nossos sentimentos/emoções, responsável por nossa criatividade, pela linguagem, desenvolvimento de novas habilidades (artísticas, por exemplo) e de relacionar-se. Portanto, precisamos desenvolver ao longo da vida ambos hemisférios, para que nossa inteligência emocional alcance níveis mais elevados e adequados à nossa maturidade e crescimento pessoal e profissional.




O que é a Inteligência Emocional?

Segundo Daniel Goleman, Inteligência Emocional é “a capacidade de reconhecer nossos sentimentos e os das outras pessoas, de maneira a nos motivarmos a poder lidar adequadamente com as nossas emoções, tanto em relação a nós mesmos quanto às pessoas com as quais nos relacionamos.”
“É uma forma diferente de inteligência, composta principalmente de autoconhecimento, habilidade social e capacidade de perceber sentimentos alheios.”

Sim, a empatia é um dos fatores de maior importância para nosso coeficiente de inteligência emocional. E é bem diferente de apenas reconhecer o que outro sente, é mais como um “sentir junto com a pessoa”.

E como as emoções podem ser definidas?

Alguns estudiosos chegaram a uma definição:

-Emoção é um complexo estado de sentimentos, com componentes somáticos, psíquicos e comportamentais, relacionados ao afeto e humor. (Kaplan e Sadock, 1993).
-Todas as emoções são, em essência, impulsos, legados pela evolução, para uma ação imediata, para planejamentos instantâneos que visam lidar com a vida.

Inteligência Emocional no homem e na mulher:

Segundo o artigo “Inteligência Emocional: Cérebro masculino versus cérebro feminino”, de um portal de psicologia de Portugal:

“Um grupo de cientistas da Johns Hopkins University fez um estudo no qual descobriram que existe uma região no córtex chamado lóbulo ínfero-parietal (LIP). Essa estrutura é maior nos homens do que nas mulheres. (…) Também descobriram que, nos homens, o lado esquerdo do LIP é maior do que no lado direito, o que os leva a ter maior tendência em habilidades matemáticas. Esta é a mesma área que foi demonstrada ser maior no cérebro de Albert Einstein e de outros físicos e matemáticos”.
No mesmo artigo, Jill M. Goldstein e colegas (da faculdade de Medicina de Harvard) são citados em sua pesquisa, onde utilizaram a ressonância magnética para medir área corticais e sub-corticais em mulheres. Os pesquisadores descobriram que determinadas partes do córtex frontal (envolvido em funções cognitivas muito importantes) são proporcionalmente mais volumosas em mulheres do que em homens, assim como partes do córtex límbico (sistema responsável pela regulação e compreensão das emoções). (…) Um outro estudo demonstrou que a área de Broca e Wernicke (áreas do cérebro que controlam a linguagem), eram respectivamente 20% e 18% maiores nas mulheres.

Na Universidade de Yale descobriram que o cérebro das mulheres processa a linguagem simultaneamente nos dois hemisférios, enquanto que os homens tendem a processá-la com mais frequência no hemisfério esquerdo (focado no racional e na lógica, como vimos no início do artigo). É importante ressaltar que não há maneira melhor ou pior, nem correta ou errada de processar as informações e situações que vivenciamos. São apenas diferentes!
Portanto, homens e mulheres processam fatos e situações tanto emocionalmente quanto racionalmente, contudo, no homem, predomina-se o raciocínio lógico e racional, o que não quer dizer que não consigam sentir e se emocionar, porém, que processam e demonstram seu lado emotivo de maneira diferente e tardia, até mesmo pelas convenções culturais que perduraram e ainda têm certa força nos dias de hoje.
Já a mulher, processa as diferentes situações tanto racional quanto emocionalmente ao mesmo tempo, tendo que lidar com a razão e a emoção de maneira simultânea. Os estudos apontam  que, o que sentem a respeito de algo parece prevalecer ao que pensam com relação a mesma coisa.
A boa notícia é que ambos evoluem conforme o tempo e o amadurecimento, e com isso as habilidades ligadas à inteligência emocional podem melhorar em ambos sexos!

Razão X Emoção:

O Q.I. não assegura prosperidade, prestigio ou felicidade. O que parece importar mais é como a pessoa reage às vicissitudes da vida. Quem lida bem com os próprios sentimentos e com os dos outros, tem maior probabilidade de sentir-se satisfeito e ser eficiente.
Harvard: acompanhou-se 95 estudantes (classes da década de 40): os que obtiveram melhores notas não foram os mais bem sucedidos na meia idade (salário, produtividade, status, relacionamento afetivo, amigos e família) . Estes não se sentiam felizes ou satisfeitos. (Pesquisa Harvard capitulo 3 – Inteligência Emocional – Daniel Goleman)

O “sequestro emocional”:

-Temos duas mentes: a que raciocina e a que sente;
-Em muitas ocasiões, nossos impulsos emocionais dominam nossa razão;
-Como uma espécie de alarme: reagimos e só depois raciocinamos e percebemos com maior nitidez o que fizemos ou falamos;
-O problema é que muitas vezes nossas reações emocionais são inadequadas, ou seja, somos sequestrados por nosso emocional, que não nos permite, em todas as ocasiões, pensar e raciocinar antes de tomar uma decisão e agir.

Fatores que contribuem para a Inteligência Emocional:

Auto-conhecimento: 
Saber reconhecer um sentimento enquanto ele ocorre, tomando consciência das suas emoções;

Controle emocional:
Capacidade de lidar com as próprias emoções, adequando-se a cada situação;

Automotivação:
Dirigir emoções para objetivos determinados;

Empatia:
Saber reconhecer as emoções nas outras pessoas, tal como se estivesse sentindo-as igualmente;

Habilidades nos relacionamentos interpessoais.

Habilidade de compreender os outros; a maneira de como aceitar e conviver com o outro.




“Conhece-te a ti mesmo” – Um breve conto:

Um guerreiro samurai, conta uma velha história japonesa, certa vez desafiou um mestre Zen a explicar o conceito de céu e inferno, contudo, o monge respondeu-lhe com desprezo:
– Não passas de um rústico… Não vou desperdiçar meu tempo com gente da tua laia!
Atacado na própria honra, o samurai teve um acesso de fúria e, sacando a espada, berrou:
– Eu poderia te matar por tua impertinência!!!
– Isso – respondeu o monge calmamente – é o inferno.
Espantado por reconhecer como verdadeiro o que o mestre dizia acerca da cólera que o dominara, o samurai acalmou-se, embainhou a espada e fez uma mesura, agradecendo ao monge a revelação.
– E isso – disse o monge – é o céu.
Podemos aperfeiçoar a nossa Inteligência Emocional?
O ideal é que a Inteligência Emocional seja desenvolvida logo a partir da infância. No entanto, é possível ser aperfeiçoada durante toda a vida, inclusive na idade adulta.
Identificando suas principais “falhas” emocionais, você poderá aprender a ser um melhor ouvinte ou a controlar suas emoções não só a seu favor, mas também preservando e respeitando os que estão a sua volta.
     

Referências:

Daniel Goleman. Inteligência Emocional. (Livro).
Armanda Vieira, Joana Isabel Moreira e Rita Morgadinho. Inteligência Emocional: Cérebro masculino versus cérebro feminino. Ano: 2008. (Artigo)

*Natália Ceará - Bem Viver Mais. Disponível em Acesso 15 Abr. 2019.

domingo, 14 de abril de 2019

Discurso sobre a Dignidade do Homem de Pico della Mirandola e O Bicho de Manuel Bandeira


Trecho 1

Discurso sobre a Dignidade do Homem De hominis dignitate oratio (Extracto de Pico della Mirandola)

"Adão, não te atribuímos nem lugar certo, nem aparência que te seja própria, nem alguma função específica, para que detenhas e explores aquele lugar, aparência e função que com segurança tenhas preferido, segundo tua escolha e decisão. A natureza limitada de todas as outras coisas está restringida por leis prescritas por nós. Tu, por nenhuma restrição limitado, por teu próprio arbítrio, em cuja mão eu te pus, determinarás a tua natureza. [...] Não te fizemos nem celestial nem terreno, mortal nem imortal, para que, de ti próprio, erijas, como um escultor ou narrador livre e honrado, em segurança, a forma que preferires."

MIRANDOLA, Pico della. Discurso sobre a dignidade humana. ß 5, 18-22. (Tradução do original em latim).

Trecho 2


O Bicho (de Manuel Bandeira)
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem
Manuel Bandeira
Rio, 27 de dezembro de 1947.

Manuel Bandeira. Estrela da Vida Inteira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993

(20ª ed.), pp. 201-202 e 222.


QUESTÃO 01. A partir da leitura dos trechos acima e considerando outros conhecimentos sobre o assunto, REDIJA um texto, identificando a característica que fundamenta a ideia de dignidade humana.

A Truta - Crônica de Luís Fernando Veríssimo


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A Truta 

Por Luís Fernando Veríssimo* 


O homem pediu truta e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente.
- Como, escolher?
- No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser. 
Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. 
As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.
- Essa está bonita... disse o garçom.
- Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas.
- Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela. 
A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.
- Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo... 
Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo. Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. 
Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua - pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. Havia toda uma engrenagem montada para afastar você do remorso. As galinhas vinham já esquartejadas, suas partes acondicionadas em bandejas congeladas, nada mais distante da sua responsabilidade. Os peixes jaziam expostos no gelo, com os olhos abertos mas sem vida. Exatamente, olhos de peixe morto. Mas você não decretara a morte deles. Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. Não via o sangue. De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher.
- Vai essa, doutor? 
- insistiu o garçom.
- Não sei. Eu...
- Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha aí, ficou paradinha. Só faltando dizer ''Me come''.
O homem desejou que a truta deixasse de encará-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a fitá-lo. Ele estava delirando ou aquele olhar era de desafio?
- Vamos - estava dizendo a truta. - Pelo menos uma vez na vida, seja decidido. Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. A decisão é sua. Eu não decido nada. Sou apenas um peixe, com cérebro de peixe. Não escolhi estar neste tanque. Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. A minha e a sua. Você é um ser humano, um ente moral, com discernimento e consciência. Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. Você tem uma biografia para decidir. A minha. Agora. Depois pode decidir a sua, se gostar da experiência. O que não pode é continuar se escondendo da vida, e....
- Vai essa mesmo, doutor? - quis saber o garçom, já com a rede na mão para pegar a truta.
- Não - disse o homem. 
- Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa. E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardápio, perguntou:
- Esses camarões estão vivos?
- Não, doutor. Os camarões estão mortos.
Pode trazer. 

*Escritor. 
Crônica publicada no jornal O Globo, 23/08/2009 e posta no IHU, 24/08/2009.

Pensamentos

"Conhece a ti mesmo." Sócrates --"A linguagem é a morada do Ser." Heráclito -- "O homem é a medida de todas as coisas." Protágoras -- " Penso, logo existo. " René Descartes -- " O Mundo é minha representação sobre ele. " Artur Schopenhauer -- " Ai ai, o tempo dos pensadores parece ter passado! " Soren Kierkaard -- "Sobre aquilo que não pode ser dito deve se calar.” Ludwig Wittgenstein -- "O Ser é um horizonte de possibilidades." Martin Heidegger -- "A essência precede a existência." Jean Paul Sartre -- " A esperança floresce senão sobre o solo do desespero. " Gabriel Marcel "A razão e a sabedori falam. O Erro e a ignorância gritam." Sto. Agostinho "A melhor lição é o exemplo." Sto. Agostinho