segunda-feira, 7 de junho de 2010

Alienação e Ideologia

Alienação e Ideologia

Alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa, dão independência a esta criatura como se ela existisse por si mesma e em si mesma, deixam-se governar por ela como se ela tivesse poder em si e por si mesma, não se reconhecem na obra que criaram, fazendo-a em ser outro, separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles.

Na alienação social, os seres humanos não se reconhecem como produtores de instituições sociopolíticas (como, por exemplo, o Estado, a família, o casamento, a propriedade, o mercado, etc.) e oscilam entre duas atitudes: ou aceitam passivamente tudo que existe, por ser tido como natural, divino ou racional, ou se rebelam individualmente, julgando que, por sua própria vontade e inteligência, pode mais do que a realidade que os condiciona. Nos dois casos, a sociedade é o outro (alienus), algo externo a nós, separado de nós e com poder total ou nenhum poder sobre nós.

A alienação social se exprime numa "teoria" do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida.

Um exemplo desse senso comum aparece no caso da "explicação" da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante da sua sociedade.

Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as idéias de uma das classes sociais – a dominante e a dirigente – tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.

A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da idéia de "humanidade", ou da idéia de "nação" e "pátria", ou da idéia de "raça", etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social de classes, mas por diferenças individuais de talentos e de capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc.

A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias.

Adaptado de Chauí, Marilena; Convite à Filosofia, São Paulo, Ática, 1995, pp. 170-174

Ideologia:

O termo foi criado por Destut De Tracy (Idéologie, 1801) para indicar " a análise das sensações e das idéias", segundo o modelo de Condillac. A ideologia foi a corrente filosófica que assinalou a transição do empirismo iluminista ao espiritualismo tradicionalista que floresceu na primeira metade do século XIX.

Dado que alguns ideólogos franceses lhe foram hostis, Napoleão adotou o termo em sentido depreciativo, chamando de "ideólogos" aos "doutrinários", ou seja, as pessoas privadas de sentido político e, em geral, sem contato com a realidade.

Neste momento se inicia o significado moderno do termo que se aplica, não a uma espécie qualquer de analise filosófica, senão a uma doutrina mais ou menos privada de validade objetiva, porém mantida pelos interesses evidentes, ou escondidos dos que a utilizam.

A noção de Ideologia, neste sentido, resulta, na segunda metade do século XIX, fundamental para o marxismo é um de seus maiores instrumentos polêmicos contra a cultura denominada "burguesa". Marx afirmou a dependência das crenças religiosas, filosóficas, políticas, morais, das relações de produção e de trabalho, tal como se constituíram em toda fase da história econômica – é a tese do materialismo histórico. Por essa concepção entende-se ideologia como o conjunto dessas crenças, enquanto não tem outra validade que a de expressar uma determinada fase das relações econômicas e, portanto, de servir à defesa e aos interesses que prevalecem em cada fase dessas relações de produção.

Em 1916, Vilfrido Pareto. A noção de ideologia corresponde, em Pareto, a uma teoria não-científica, ou seja, uma teoria não lógico-experimental. Ciência e ideologia pertencem assim a dois campos separados que nada têm em comum: a primeira ao campo da observação e da razão, a segunda ao campo do sentimento e da fé. Conclui que a ideologia tem como função, em primeiro lugar, persuadir, isto é, dirigir a ação.

Mannheim, outro teórico da ideologia, distingue um conceito particular e um geral do termo ideologia. No sentido particular se entende "ao conjunto das imitações mais ou menos deliberadas de uma situação real, com cujo exato conhecimento contrastam os interesses dos que sustentam a ideologia mesma". No sentido mais geral se entende ideologia por "visão de mundo" de um grupo humano, uma classe social, por exemplo. Mannheim distingue ideologia de utopia, afirmando que a utopia se realiza enquanto a ideologia não.

Portanto, em geral, se pode denominar Ideologia a toda crença adotada como controle dos comportamentos coletivos, entendendo o termo crença em seu significado mais amplo, como noção que compromete a conduta e que pode ter ou não validade objetiva. Assim entendido, o conceito de ideologia resulta puramente formal, já que pode ser adotada como Ideologia tanto uma crença fundada sobre elementos objetivos, como uma crença totalmente infundada, tanto uma crença realizável como uma crença não realizável. O que faz da ideologia uma crença não é, com efeito, sua validade ou falta de validade senão sua capacidade de controle dos comportamentos em uma situação determinada.

(Diccionario de Filosofia; Nicola Abbagnano)

3 comentários:

Filosofando disse...

Muito bem apurado.Parabéns.

luizacastelo disse...

muito legal , suas colocações

Anônimo disse...

Valeu profºLeonardo!
Muito me acrescentou em conhecimento.

Pensamentos

"Conhece a ti mesmo." Sócrates --"A linguagem é a morada do Ser." Heráclito -- "O homem é a medida de todas as coisas." Protágoras -- " Penso, logo existo. " René Descartes -- " O Mundo é minha representação sobre ele. " Artur Schopenhauer -- " Ai ai, o tempo dos pensadores parece ter passado! " Soren Kierkaard -- "Sobre aquilo que não pode ser dito deve se calar.” Ludwig Wittgenstein -- "O Ser é um horizonte de possibilidades." Martin Heidegger -- "A essência precede a existência." Jean Paul Sartre -- " A esperança floresce senão sobre o solo do desespero. " Gabriel Marcel "A razão e a sabedori falam. O Erro e a ignorância gritam." Sto. Agostinho "A melhor lição é o exemplo." Sto. Agostinho