quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Lentes Urbanas

A mídia e o problema da liberdade sem autonomia

Leonardo Oliveira de Vasconcelos*

Foto: rebanho de ovelhas
Sabemos que a mídia, os meios de comunicação em massa, é formadora de consciência, e ninguém nega que ela tem esse poder. O problema disso não é em formar consciências, mas sim atrofiar consciências, e isso compromete a liberdade dos seres humanos. Mas nem tudo está perdido, uma vez que a Filosofia é um convite ao pensar! Pensar é sim mudar seu “modo de ver” o mundo e a vida, é conseguir ver o mundo com outros olhos, ou melhor, enxergar o mundo com mais nitidez e com mais precisão. Através dessa ciência Filosofia é que conseguimos enxergar um novo mundo, conseguimos abandonar pensamentos fúteis como o preconceito e até as nossas ações, mas para que possamos ver corretamente é necessário ter nas mãos as lentes necessárias para tal fim.

Lentes urbanas: a questão da imagem

Ora, foi o pensador oriental Confúcio (500 a.C.) quem fez as primeiras referências sobre a existência dos óculos, ou melhor, das lentes, que transformariam nos óculos de hoje. Os óculos são um bom instrumento para falarmos sobre um modo melhor de ver o mundo e a vida. Nesse sentido podemos comparar a função da Filosofia com a função dos óculos. A palavra óculos vem do latim “ocularium”, que eram aqueles orifícios abertos nos capacetes dos soldados da Antigüidade para que pudessem enxergar. Nessa linha de pensamento, podemos estar pensando conforme o tamanho orif que se encontra em nosso pensamento, quanto maior o orifício, maior será nosso campo de percepção da realidade do mundo e da vida, se o contrário acontecer, menores serão as chances de vermos a realidade. A Filosofia também é assim, Filosofia vem do grego filos – amigo e sofia – sabedoria, é a busca da sabedoria, amigo da verdade, é sim uma busca pelas lentes que nos levam a ver melhor as coisas, como diz Wittgenstein, filósofo contemporâneo, temos que construir novas idéias do mundo e da vida, isto é, "a idéia é como óculos assentados sobre o nariz e o que vemos, vemos através deles”. As chamadas “lentes” (as idéias, ou seja, o nosso modo de ver o mundo, as nossas concepções do mundo) podem ser escuras, verdes, amarelas e até mesmo vermelhas, adequadas para cada gosto e para cada pessoa.

A Liberdade: problema da autonomia


Os filósofos antigos e modernos (e até os contemporâneos, exemplo disso Wittgenstein, Adorno, Foucault, Sartre e outros) estavam preocupados em enxergar melhor o mundo, estavam preocupados em usar lentes diferentes das que foram usadas pelos filósofos antigos, mas para conseguir tal fim era necessário “polir” essas lentes, ou seja, ousar conhecer, ousar saber (sapere aude). Exemplo disso é o filósofo Immanuel Kant, ele estava preocupado com as “lentes” que as pessoas de seu tempo tinham acerca das coisas. Para ele, a liberdade é uma qualidade que todos os indivíduos têm, e até mesmo os animais têm liberdade, porém a autonomia é uma qualidade do sujeito que tem consciência de suas ações, ou seja, todos somos livres, até os animais são livres, mas a verdadeira liberdade (autonomia) tem que estar baseada no crivo da razão: seremos realmente livres a partir do momento em que tivermos consciência das nossas escolhas e das nossas ações, porém para que isso seja possível, devemos sempre buscar a nitidez do conhecimento, por isso é importante sempre estar com boas lentes para ver as coisas.

Marketing Político: as lentes (imagens) já promoveram até Hitler

A mídia, os meios de comunicação em massa, tem o poder de criar “lentes” na vida das pessoas. Não só a mídia, mas líderes religiosos, políticos, professores e outros. Esse poder de criar lentes é muito importante, mas o problema não reside aí, o problema se encontra quando essas “lentes” são usadas para atrofiar o pensamento dos indivíduos na sociedade, formando consciências de massa, isto é, consciências influenciadas, consciências sem a capacidade de criar, inventar, enxergar a realidade do mundo e da vida. E isso não é um problema novo, Platão já estava preocupado com isso na Antigüidade grega, em seu Mito da Caverna (República, livro VII) já nos alertava que existiam pessoas que se contentavam com as sombras da vida, com as projeções do mundo que apareciam dentro da caverna, ou seja, com as projeções das imagens da realidade e não conheciam, ignoravam, não ousavam conhecer a realidade da vida, uma verdadeira atrofia do pensamento, atrofia da verdade das coisas, e o papel do filósofo era ao ver a realidade do mundo, a realidade das coisas e não as projeções, as sombras da vida, entrar dentro da caverna para chamar e alertar e mostrar às pessoas sobre essa realidade, sobre a vida.

O papel da mídia hoje não é só oferecer um mar de informações para as pessoas, é mostrar sim as lentes necessárias para um conhecimento mais crítico da realidade, a mídia deve anunciar as novas lentes, os novos óculos para o bem da humanidade, novos óculos que estejam a serviço da vida! Ah, vale lembrar que óculos são uma das invenções mais úteis e benéficas que existe para o ser humano.


* Leonardo Oliveira de Vasconcelos é escritor, licenciado em Filosofia pela UFMG, professor de Ética e Cidadania do Colégio Rui Barbosa em Belo Horizonte - MG.

Pensamentos

"Conhece a ti mesmo." Sócrates --"A linguagem é a morada do Ser." Heráclito -- "O homem é a medida de todas as coisas." Protágoras -- " Penso, logo existo. " René Descartes -- " O Mundo é minha representação sobre ele. " Artur Schopenhauer -- " Ai ai, o tempo dos pensadores parece ter passado! " Soren Kierkaard -- "Sobre aquilo que não pode ser dito deve se calar.” Ludwig Wittgenstein -- "O Ser é um horizonte de possibilidades." Martin Heidegger -- "A essência precede a existência." Jean Paul Sartre -- " A esperança floresce senão sobre o solo do desespero. " Gabriel Marcel "A razão e a sabedori falam. O Erro e a ignorância gritam." Sto. Agostinho "A melhor lição é o exemplo." Sto. Agostinho